Meditações espirituais

A Secreta Alegria do Silêncio.

Prof. Dr. Messias Correia

De que silêncio estamos tratando, senão daquele próprio do ato orante do ser que se volta ao divino, nele depositando toda a sua esperança e repouso. Esse silêncio é sempre oportuno, pois constitui um caminho suave de escuta e de conhecimento. Não está isento de dores; contudo, em seu núcleo habita uma alegria que se difunde não em grandes frenesis ou euforias, mas na serenidade dos gestos, na harmonia das palavras e na postura do corpo. Trata-se de uma alegria que, aos olhos de alguns, sobretudo daqueles que a reconhecem apenas na euforia ou em manifestações exaltadas, pode facilmente parecer tristeza. Por isso, não é incomum que o silêncio seja confundido com melancolia, já que, para muitos, o lugar da alegria se revela apenas em gestos ruidosos e ambientes repletos de barulho. Isso não significa que a alegria não se manifeste, em muitos momentos, dessa forma. O problema, porém, reside no fato de incorrermos no grave erro de fugirmos do silêncio, ao associá-lo indevidamente à tristeza. O que defendo aqui é que há, no núcleo do silêncio - quando este é orante - uma alegria mais densa e duradoura, que não nasce de realidades exteriores e superficiais, mas que diz respeito ao encontro do ser consigo mesmo e com o divino que nele habita. Trata-se de uma presença que eleva o ser ao conhecimento e promove uma harmonização interior, inserindo-o em um dinamismo para o qual foi criado.

Há alegria no silêncio; isso, porém, não significa que não existam, igualmente, incômodos que acometem o corpo e a mente, nem que aquele que silencia tenha alcançado um estado de imunidade frente às paixões humanas. Ao contrário, o silêncio frequentemente revela tais realidades, fazendo-as emergir da interioridade para a exterioridade e da exterioridade a interioridade. Contudo, o silêncio é um caminho para realidades maiores, um encontro definitivo com a singularidade divina. Certa vez ouvi, não me recordo exatamente onde, talvez de um monge budista, uma explicação alegórica: a de uma pedra lançada ao alto a um rio. Ao cair, ela toca a lâmina d’água, formando ondas; sua velocidade de descida diminui gradualmente até que, por fim, repousa no fundo do rio. Ali, as águas seguem seu curso naquele corpo agora imóvel, em silêncio. O impulso inicial e o impacto precedem o repouso. Assim também é o silêncio na vida interior: a pedra lançada já pertencia ao próprio rio; ao retornar, reencontra o seu lugar de repouso. O rio não lhe é estranho, pois ela é parte dele. Há uma alegria nessa pertença, mas é uma alegria em repouso, sem alardes e barulhos.


             


Padres do Deserto

Praktiké, Physiké e Theoretiké:

a Estrutura da Vida Espiritual em Evágrio Pôntico.

                   Prof. Dr. Messias Correia.



                                                                                         

             

Evágrio Pôntico- de sua juventude não há muitas informações, no

entanto, é conhecido de que tenha nascido por volta de 345 em Ibora, na Ásia Menor, na chamada província do Ponto. Foi contemporâneo e conviveu ainda jovem com Básílio que o introduziu na ordem de leitor e manteve vínculos muito próximos com Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa. Portanto, estava inserido no grupo dos Padres da Capadócia que certamente exerceram grande influência em sua trajetória espiritual. O que pretendemos aqui não é tecer um comentário biográfico, mas apresentar alguns aspectos importantes de sua doutrina. Alguns conceitos são recorrentes em sua obra e são fundamentais para se construir uma interpretação de sua mística, como é, por exemplo, o termo Praktiké, que diz respeito a um método espiritual, um caminho que conduz a purificação da parte passional da alma. Trata-se, na verdade, de um caminho de aquisição da virtude. Não se trata de uma técnica tal como concebida em nosso tempo, mas em um caminho de condução da vida em direção ao divino, uma dependência da divindade que resulta no processo de redenção. A Praktiké deve purificar as faculdades irracionais da alma, vencer as paixões para que se alcance a impassibilidade (apatheia)[1]. Essa conquista é uma espécie de coroamento da Praktiké. Nesse sentido, alcança- se a physiké, ou o conhecimento das criaturas que, de alguma forma torna o divino conhecido. A teologia mística, o que se tem é a contemplação theoretiké que é o conhecimento mais elevado do divino, a gnostiké. Assim, Evágrio estabelece sua relação com Deus numa perspectiva tripartite: praktiké, physiké e theoretike. Essa

prática não é destinada somente aos monges, embora sejam esses os destinatários de sua obra, pois Evágrio entende que o Cristianismo compõe-se da prática, da física e da teologia[2]. Isto é, a prática como caminho da virtude ou uma inserção no mistério divino. A física, que é o conhecimento natural ou das coisas criadas por Deus e a teologia que consiste no conhecimento íntimo e pessoal de Deus. O termo a que se refere às tentações que se impõe sobre os pensamentos tornando-os maus é chamado de logismoi. Em seus escritos, Evágrio aponta que durante o processo de purificação da alma, o ser humano tem oito desafios das paixões da alma a serem vencidos: a gula, a fornicação, a avareza, a tristeza, a cólera, a acídia, a vanglória e o orgulho. A gula incide sobre o monge para que ele fracasse em sua ascese e seja dominado pelo estômago; a fornicação o obriga a abandonar seu caminho persuadindo de que este não conduz a lugar algum, apresenta-lhe corpos sedutores como objetos de desejo; a avareza impõe-lhe a insegurança prevendo a velhice duradoura e o temor de depender das mãos de outrem. É o amor ao dinheiro que torna os bens passageiros como único objeto de devoção; a cólera que é a ebulição da parte irascível contra aquele que fez algum mal e, portanto, deixa alma furiosa ao longo do dia. Essa paixão pode desencadear o ressentimento acompanhado de diversos pensamentos maus; o demônio da acídia, também chamado de demônio do meio-dia cerca a alma para que sinta o peso dos dias, das horas e conduz o monge a aversão ao lugar em vive e ao trabalho manual. Nesse caso, o faz desejar outros lugares e solicita ao monge que abandone sua cela. A vanglória, por sua vez, pode se dissimular em virtude, no desejo de ser bem visto pelas suas obras, lutas e glórias. Pode conduzir o monge a imaginação de que detêm poderes de curas, milagres e que deve ser visto pelas multidões como mestre. Por fim, a paixão do orgulho,

que conduz a alma à queda, pois não reconhece o auxílio da graça divina e crê que a causa das boas ações se encontra em seus próprios méritos, torna a vida mística conturbada.

Portanto, o pensamento de Evágrio é tributário de Orígenes, sobretudo em três pontos, a criação, a compreensão de que o ser humana no ato da criação teve a queda e se tornou distante do criador, a segunda criação e o retorno. Sobre isso, McGinn explica: Outo aspecto importante da mística de Evágrio é que, o místico em seu processo de ascese deve se alimentar da prosuche (a prece). A prece seria uma elevada gnosis que implica numa simultaneidade em que o teólogo reza verdadeiramente se assim o faz, é místico. Na prece, alcança-se a libertação de todas as imagens e formas negativas para conhecer a Deus de forma direta e sem conceito. Aqui Evágrio abre uma perspectiva importante na sua mística, a apófase, pois, para o asceta, a divindade ultrapassa todo conhecimento e demonstração.

 

 

[1] A palavra apátheia, muitas

vezes fora traduzida erroneamente como uma espécie de “apatia” ou até mesmo indiferença e insensibilidade. No entanto, diferente do sentido estoico, no meio eclesiástico é relacionado à libertação

de todas as paixões. Isso ocorre quando se é preenchido pelo Espírito Santo. É o espaço em que a alma arde de amor pelo divino e rompe com o egoísmo. Interpretação extraída da nota de rodapé da obra Escada do Paraíso (CLÍMACO, 2020, p. 8).

[2] EVÁGRIO, [s.l], s.d, 8, p. 55. A referida obra, em sua versão digital,

não oferece as informações da editora e o ano da publicação.



O Corpo e a Prece: a

travessia para o interior do ser.


                   Prof. Dr. Messias Correia.



                                                                          

O corpo humano, em sua relação com o mundo, encontra-se inevitavelmente exposto às tensões. Desde o nascimento, no ato da expulsão uterina, já experimenta a tensão de um êxodo que inaugura um novo ambiente: o mundo. Ao longo da vida, o corpo é submetido a novas tensões decorrentes do crescimento, da aquisição de habilidades e das múltiplas exigências necessárias

à sua permanência no mundo. Há, portanto, uma diferença fundamental entre tensão e agressividade. A primeira diz respeito aos aspectos positivos que dinamizam a vida humana em um movimento sempre crescente; a segunda, ao contrário, oprime o corpo, o contrai e interrompe qualquer forma de progresso. O corpo exposto à tensão, como nos exercícios físicos, na prática de esportes ou nas caminhadas, tende a expandir-se para níveis mais elevados de aptidões e habilidades. Ao passo que, quando exposto à agressividade, como no uso de substâncias viciantes, em ambientes violentos, entre outros, tende a perder não apenas sua robustez e saúde, mas também sua harmonia estética. O cuidado com o corpo constitui, portanto, uma ação elementar no progresso espiritual. Não se trata de fugir das tensões da vida, mas de evitar, como parte do cuidado de si, toda forma de agressividade que reduza o corpo a

um estado de inferioridade e indignidade.

A agressividade corresponde à forma de opressão à qual o corpo

está submetido e que o impede de manifestar sua grandeza, sua evolução e sua bondade. Ela pode ser ativa ou passiva. Por agressividade ativa, entende-se aquela que o corpo exerce sobre si mesmo ou sobre o outro; por passiva, as afecções que sofre, advindas de eventos exteriores que agem sobre ele, deformando-o.

O corpo é um grande bem e, como tal, deve ser cuidado, sem que

isso se transforme em uma forma de culto.

Acalmar o corpo das agressividades é um passo imprescindível para

a interioridade. Para isso, muitas vezes torna-se necessário preservar-se de ambientes ou situações que alimentem ou favoreçam tais agressões. Nessa direção, a disciplina, como a prática da meditação, pode ser exigente (tensa), mas não é agressiva. O relaxamento, a postura e a respiração, entre outros

elementos, podem auxiliar nesse processo de integração e cura.

Por isso, muitas tradições espirituais, dentro e fora do cristianismo, redescobriram no corpo um valor imensurável de beleza e bondade.

Ele não é um inimigo a ser vencido nem um cárcere a ser demolido, mas o único modo de estar no mundo, de estabelecer relações com os semelhantes e com toda a realidade, criada e incriada. É nessa perspectiva que se situa a relação entre o corpo e a prece. A prece não é apenas uma expressão verbal, mas uma vibração orante de um corpo que se orienta ao transcendente. Quando brota da interioridade, a prece tende a afastar o corpo da dispersão e da agressividade, conduzindo-o a um centro integrador.

A prece que nasce no corpo deve atravessar movimentos e gestos,

em uma fluidez dinâmica e circular, do interior ao exterior e do exterior ao interior. Cada pulsar, cada respiração, orienta-se para uma totalidade e para uma realidade superior. O corpo em prece vence, gradualmente, a dispersão e a agressividade, ainda que permaneça em tensão.

No relato bíblico, Jesus encontra em seu caminho muitos corpos feridos e fragilizados. A mulher que sofria com hemorragia há doze anos, em meio à multidão que a apertava e empurrava, toca suas vestes e é curada.

 Quem não conhece o esforço de subir em uma árvore, a tensão dos membros exigidos nesse movimento? Assim foi com Zaqueu, no caminho de sua conversão. Do mesmo modo, o paralítico é carregado até o Mestre, enfrentando a dificuldade de ser conduzido pelo telhado; e o leproso que se aproxima de Jesus, superando as proibições da lei. São corpos feridos que, por meio do esforço e da tensão, encontram aquele que pode curá-los. Torna-se, então, significativa a exortação: “oferecei vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12,1). Direcionado para Deus, o corpo assume sua mais alta dignidade: “não sabeis que sois templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor 6,19-20).

Portanto, o cuidado com o corpo torna-se um ato de culto a Deus que nele habita. Redescobrir o sentido espiritual do corpo é um chamado profundo e urgente para o nosso

tempo.


 


A vida interior: caminho, conflito e desvelamento.

                  Prof. Dr. Messias Correia.



                                                                     

Cultiva uma vida interior intensa. Contudo, há um risco, e este deve ser evitado: o de adentrar as sendas da interioridade sozinho, sem a dileta presença e a segura companhia do Senhor. Os demais riscos são inevitáveis, pois constituem a própria dinâmica de aprofundamento humano-espiritual. Isso porque o encontro com o nosso eu profundo implica uma experiência, por vezes, terrível, na qual se desvela o desconhecido: tanto a presença do divino em nós quanto os nossos próprios abismos. Isso porque a vida interior é uma necessidade para todo ser humano, mesmo para aqueles que não professam religião ou fé. Ela é condição para que a existência não se reduza à mera superficialidade, ainda que ao custo das dores

que tal empreendimento possa acarretar. Depois que se cai no abismo da interioridade, não há retorno, resta apenas atravessar os riscos e seguir adiante. Até se alcançar o tesouro escondido no campo, como ensinou o divino mestre. E onde está esse tesouro, senão dentro de nós. "O Reino de Deus está dentro de vós". Se está dentro, então é este o "terreno" a ser escavado, onde, na profundidade do ser, se oculta o ouro mais puro. A vida interior é esse processo de saída da superfície para a profundidade do ser, um

movimento que deve ser, antes de tudo, orante, pois, também o é, uma intensa batalha em que se sobressaltam os monstros que estavam ocultos à superfície, ou melhor, apareciam sob o disfarce de ovelhas, mas que eram lobos. Na interioridade essas faces vão se revelando aos poucos e, precisam ser vencidas e superadas. A luta, então, é intensa, mas não é a alma quem luta por si, é o

divino mestre que com sua luz torna evidente todas as coisas, aquilo que estava oculto se mostra pela força da luz que ilumina e se apaga para que faces seguintes se sintam no ambiente propício ao aparecimento. A vida interior não é privilégio de alguns cristãos, mas um imperativo que atravessa todos os estados de vida, pois

constitui o caminho decisivo de encontro consigo mesmo e com Deus. Do monaquismo à vida matrimonial, a interioridade deve ser assumida com a seriedade de quem busca um grande tesouro. Ela não se opõe a nenhum desses estados; ao contrário, conduz a uma vivência mais densa, unificada e integral. No entanto, da interioridade emergem implicações que alcançam a exterioridade e

podem gerar tensões nas dinâmicas das relações e dos ambientes, sobretudo em um mundo marcado pela fragmentação e pela superficialidade. As batalhas interiores, portanto, não permanecem ocultas no "subsolo" da alma: irrompem à superfície, provocando estranhamentos e, por vezes, dissabores. É justamente na superficialidade e na fragmentação que perdemos a percepção do nosso verdadeiro lugar. Falta-nos a humildade necessária para compreender o próprio papel no mundo e, assim, passamos a opinar sobre tudo, a interferir em tudo e a nos ocupar excessivamente com questões que ultrapassam nossas possibilidades. Tal postura nasce da ilusão de que em nós predomina a virtude, aquela que supostamente falta ao mundo, como se possuíssemos uma certa perfeição. Por isso, não raramente, julgamo-nos a solução para a engrenagem defeituosa que enxergamos ao nosso redor. Contudo, essa percepção é fruto da superficialidade. À medida que avançamos no abismo de

nós mesmos, tomamos consciência dos "monstros" que alimentamos no interior. A vida interior desvela, pouco a pouco, nossos egoísmos, nossa vaidade, o desejo de poder, o ódio, a vingança e o orgulho. Esses elementos habitam em nós, ainda

que insistimos em projetá-los exclusivamente no mundo que nos cerca.

 





A mística como experiência da Transfiguração.

                   Prof. Dr. Messias Correia.



                                                              

O evento da transfiguração é um exemplo em que a luz divina alcança a criatura humana. É, sem dúvida, uma das principais passagens bíblicas que podemos associar à experiência mística. Vejamos: é Jesus quem leva os discípulos: "tomou consigo Pedro, Tiago e João e os levou, sozinhos, para um lugar retirado". Nesse caso, não há mérito algum por parte dos discípulos. É o Senhor quem escolhe quem, como e onde. Assim, a vida mística não é privilégio humano, nem um estado de superioridade frente aos demais cristãos. Os outros discípulos eram também verdadeiros seguidores de Cristo. Eram íntimos e amados. De fato, escolhidos

para a grandiosidade da missão. Eram, sobretudo, vocacionados à santidade. Não se trata de mérito, mas de eleição específica. Deus escolhe algumas almas para viverem essa experiência, como escolhe alguns para serem pregadores, profetas, evangelistas etc. A vida mística é uma iniciativa divina, um dom do alto que Deus oferece a quem e quando quer. Por isso, Jesus conduz os três apóstolos, pois não é a alma que busca a Deus, mas Ele quem a atrai para junto de si. Retira-a de sua baixeza, de sua condição rasteira, de seu apego aos bens inferiores e a eleva para lugares mais altos. Jesus os conduziu, então, a "uma montanha". Subida íngreme, em que aparecem o cansaço das imperfeições, as fragilidades do corpo, a sede, a fome, o desejo de parar, o olhar discreto para a planície, os pensamentos que se voltam para o que ficou na baixeza. Subir

implica muitas coisas, inclusive a espera do desconhecido, da novidade que ainda não se encontra nos domínios da alma. Todas as etapas do caminho são importantes; tudo o que compõe esse cenário vivido contribui para a perfeição da alma. Contudo, não é na planície ou no meio do caminho que ocorre a transfiguração, mas no cume da montanha. Importa chegar lá. Aí, então, o rosto

de Cristo brilha; suas vestes se tornam alvas; dele ressalta uma intensa luz que faz os apóstolos se atemorizarem diante da experiência. Deus, conhecedor do homem, de sua limitação e fragilidade, envolve a criatura com uma nuvem que desce sobre eles e os cobre com sua sombra. Isto é, a alma, exposta à densa luz, é consolada pela sombra, uma espécie de filtro que torna o divino

suportável. Isso porque Deus concede de si o que a criatura pode suportar. A sombra ameniza a presença divina, faz a alma suportar e conhecer Deus pelo elevado véu da ignorância. Por isso, é comum que o místico não saiba dizer com clareza o que viu e o que tocou, visto que lhe foi permitido ser alcançado pela luz divina entre nuvens. Isso não é de menor importância, pois se trata de um

elevado conhecimento traduzido na precariedade do símbolo.

A alma, uma vez iluminada, adquire notícias da eternidade. Isso, muitas vezes, ocorre sem planejamento, ensaio ou investida do sujeito da experiência. Pode acontecer na banalidade do cotidiano, nos afazeres mais simples, quando, de modo inesperado, Deus a visita, retirando-a de seu estado comum e elevando-a ao voo misterioso. O pouso, no entanto, é imediato, para que se acostume às alturas, uma vez que permanece no mundo trazendo notícias da eternidade. Os raios divinos iluminam por dentro e por for a, alegram, cativam e vivificam o entendimento. Deixam a alma rica e cheia de vida, produzem uma renovação prodigiosa. Por isso, essa luz não é da alma e, desse modo, não pode gerar envaidecimento, pois a alma reconhece que não lhe pertence o bem recebido; é-lhe concedido por graça. Essa luz, ao alcançá-la, faz com que veja a fundo suas misérias, ao mesmo tempo que desvela a infinita grandeza e sabedoria divinas. Ela, então, prossegue com vivíssima iluminação da mente, em que Deus a atrai para junto de si, tanto em desolação, trevas e tempestades quanto em

bonança e tranquilidade interior. Em todos os casos, luz e trevas contribuem para a purificação e tornam a alma desnuda diante de Deus. Como bem explica Arintero: "À medida que aumentam a desnudez, a pureza, a simplicidade e a retidão de intenção, vão-se fazendo mais frequentes e duradouras as iluminações com que Deus amorosamente se une ao entendimento e, como Senhor absoluto, cativa e atrai por dentro e por for a".





Multiplicidade, fragmentação e singularidade: dinâmicas da vida mística.

                   Prof. Dr. Messias Correia



                         

O místico é um ser humano, e somente enquanto humano pode sê-lo. Essa afirmação constitui um ponto de partida indispensável para aprofundarmos a reflexão acerca do fenômeno místico e da própria condição humana em seu itinerário em direção a Deus. Ela estabelece o horizonte antropológico a partir do qual se pode compreender três conceitos fundamentais que orientarão a presente análise: multiplicidade, fragmentação e singularidade. O ser humano encontra-se situado em um centro moderador de multiplicidades. Sua constituição corpóreo-espiritual manifesta-se por meio de uma complexa rede de paixões, afetos e disposições interiores. Tristeza, alegria, ódio, saudade, compaixão e tantas outras experiências afetivas compõem

esse campo interior no qual se alternam estados de serenidade e de turbulência. Tal dinâmica revela que a interioridade humana não é homogênea, mas marcada por uma pluralidade de movimentos que coexistem no interior da unidade da pessoa. Essa condição encontra expressão também na linguagem paulina, segundo a qual o corpo é formado por muitos membros que, embora distintos, encontram sua unidade na inter-relação que os constitui como um único organismo. Desse modo, o ser humano pode ser empreendido como uma unidade na multiplicidade e uma multiplicidade unificada. Corpo e alma, em sua íntima correlação, constituem um

todo no qual a diversidade de dimensões não anula a unidade, mas a compõe. Essa multiplicidade não se manifesta apenas no interior da pessoa, mas também em sua relação com o mundo. O mundo, enquanto realidade criada, apresenta-se igualmente como uma ordem múltipla, caracterizada pela diversidade de formas,

experiências e relações. Assim, tanto em sua estrutura interior quanto em sua inserção no mundo, o ser humano encontra-se inevitavelmente situado no horizonte da multiplicidade. Pode-se afirmar, portanto, que a multiplicidade constitui um elemento estrutural da existência humana. Contudo, a multiplicidade, embora seja constitutiva da natureza criada, não determina por

si mesma o destino da existência humana. No interior dessa mesma condição abrem-se duas possibilidades fundamentais: uma orientação que conduz à singularidade e outra que resulta na fragmentação. Tais possibilidades não devem ser entendidas como realidades exteriores à multiplicidade, mas como modos distintos de sua realização. A multiplicidade realiza-se autenticamente quando encontra um princípio de ordenação capaz de integrar suas diversas dimensões. Nesse caso, as potencialidades humanas, as afetivas, intelectuais, espirituais e corporais, convergem harmonicamente para um centro unificador. Essa convergência constitui o movimento pelo qual a multiplicidade se orienta para a singularidade. Quando, porém, esse princípio de ordenação se perde, a multiplicidade degenera em fragmentação. A fragmentação pode ser compreendida como a dissolução da unidade interior que mantém integradas as diversas dimensões da pessoa. Nessa condição, o ser humano perde a capacidade de integrar as forças que o constituem e, consequentemente, perde também a possibilidade de orientar-se adequadamente no

interior da própria multiplicidade do mundo. O resultado é um processo de dispersão interior, no qual a pessoa se distancia de si mesma e experimenta uma forma de desintegração existencial. Se essa possibilidade de fragmentação permanece sempre presente na condição humana, não corresponde, entretanto, ao seu fim próprio. A finalidade da existência humana orienta-se em direção ao movimento oposto, isto é, à realização da singularidade. Por singularidade compreende-se o termo para o qual convergem todas as dimensões do ser humano: o momento em que a multiplicidade encontra seu apaziguamento e repouso no Uno, que é Deus. Nesse sentido, a singularidade não implica a negação da multiplicidade, mas sua plena integração. Trata-se do estado em que a diversidade das dimensões humanas é reconduzida a uma unidade superior, na qual o ser humano encontra descanso e plenitude. A experiência mística pode, assim, ser compreendida como o momento em que essa convergência atinge sua expressão mais profunda: o repouso do múltiplo no Uno. Enquanto isso não se realiza, o caminho de singularizante ocorre mediante a progressiva consciência de que a

multiplicidade é insuficiente para a realização humana. Por isso, é comum entre os místicos, como João da Cruz, por exemplo, uma profunda insatisfação com as coisas, mesmo aquelas que sejam bens materiais e espirituais. Isso corre devido o místico, que é múltiplo, encontrar-se direcionado à singularidade. Isso implica que, enquanto não atinge tal fim, sofre as instabilidades de não mais se deleitar na multiplicidade desordenada, tampouco, na fragmentação e, por perceber que até mesmo a multiplicidade ordenada é insuficiente. Desse modo, o caminho é percorrido no desamparo, visto não ter alcançado o fim e não pertencer ao ponto que antes estava. 





Entre solidão e solitude:

a emergência da singularidade espiritual.

Prof. Dr. Messias Correia



Solidão interior em direção à Singularidade. "Sobe a mim na montanha". Essa é a ordem de Deus a Moisés. Ele imediatamente se levanta com Josué e, juntos, iniciam a subida. A Escritura narra: "Moisés, entrando pelo meio da nuvem, subiu à montanha" (Ex 24,18). Josué, porém, não acompanha Moisés até o cume; permanece em um ponto mais baixo, aguardando o seu retorno. Moisés entra sozinho na nuvem. Essa narrativa bíblica revela um aspecto profundo da relação com Deus que também se manifesta na vida mística: a experiência da solidão diante do Mistério. A partir dessa perspectiva, podemos considerar algumas formas de solidão

próprias do caminho espiritual: a solidão do mistério inexprimível, a solidão pragmática, a solidão relacional e a solidão árida.

A solidão do mistério inexprimível ocorre quando o homem espiritual adentra o mistério de Deus e recebe moções divinas, isto é, um conhecimento que se manifesta na alma por via iluminativa. Trata-se de uma solidão marcada, sobretudo, pela dificuldade, ou mesmo pela impossibilidade de expressar verbalmente aquilo que se experimenta na profundidade da relação com o divino. O esforço de traduzir a experiência em discurso, muitas vezes sem êxito, pode gerar uma forma particular de solidão interior.

A solidão pragmática refere-se à inadequação entre o homem espiritual e as prioridades do mundo. Não se trata de irresponsabilidade ou descuido com as questões humanas, mas da percepção de que muitos dos horizontes de sentido que ocupam a vida das pessoas são, em grande medida, ilusórios e se opõem ao verdadeiro sentido da existência humana. Essa solidão manifesta-se quando o homem espiritual percebe que grande parte das interações humanas gira em torno de superficialidades. Ele pode até participar dessas dinâmicas e desempenhar bem os papéis sociais que lhe são atribuídos, mas interiormente permanece voltado para outros horizontes, como que recolhido em um silencioso retiro interior. Essa experiência pode surgir em diversas

situações, ambientes e conversas da vida cotidiana.

A solidão relacional não é um fechamento em si mesmo, nem um ato de egoísmo ou vaidade. Trata-se, antes, de uma dinâmica espiritual em que Deus afasta certas pessoas ou afasta o homem espiritual de determinados círculos, ainda que isso, por vezes, provoque sentimento de ausência ou saudade. Algo semelhante ocorre na narrativa de Moisés: ele deixa a multidão na planície, sobe o monte, deixa Josué no caminho e chega ao topo sozinho. Essa solidão manifesta-se sobretudo na interioridade, quando a alma ora, medita e contempla, no silêncio do ser, a presença divina. Essas formas de solidão não devem ser entendidas como realidades

absolutamente separadas ou impermeáveis entre si, embora, em certos casos, possam ocorrer de modo isolado. Com frequência, porém, manifestam-se simultaneamente, conforme a ação de Deus e as necessidades do homem espiritual. Quando várias dessas experiências convergem e se intensificam, pode surgir aquilo que se pode chamar de solidão árida ou desértica. A solidão árida caracteriza-se pela densidade espiritual da experiência. Nela, o ser humano é conduzido a um estado de profundo abandono e despojamento interior. As diversas dimensões da vida parecem expostas ao calor do deserto. Mesmo vivendo no mundo da multiplicidade e convivendo com os seus semelhantes, a alma experimenta uma solidão profunda que a conduz a um progressivo abandono em Deus, semelhante ao de uma criança que se entrega confiadamente ao colo do Pai. Por essa razão, tal solidão não representa perda ou empobrecimento espiritual, mas antes um caminho de progresso: uma passagem da multiplicidade à singularidade. Ela favorece o desapego das confusões e ilusões que se multiplicam na experiência humana, como se golpes fossem desferidos contra a dispersão interior, com a finalidade de podar excessos e lapidar a alma. A solidão é, assim, uma passagem, uma travessia de despojamento, de desnudez para

que o homem espiritual alcance o bem da solitude. Isto é, o prazer, a segurança e a liberdade de permanecer a sós com Deus. Sem prestar conta, sem querer impressionar ao público, sem fingimento, pois não sendo visto pelos seus semelhantes em seu mistério interior, é desnudo diante de Deus. A solitude antecipa, com sua a quietude que lhe é própria, à singularidade. É uma antessala da união mais perfeita com Deus.

Portanto, essa experiência não ocorre segundo um tempo previamente determinado pela vontade humana, nem se mantém de forma contínua e uniforme. Há variações conforme o progresso da alma e as necessidades do caminho espiritual. Contudo, o mais importante não é a duração dessas experiências, mas os efeitos que produzem e a que ela conduz: transformações profundas na interioridade, pelas quais a alma se aproxima cada vez mais da sua singularidade diante de Deus. Como demostrado no início, Moisés sobre ao monte na solidão e, em seguida, ao entrar na nuvem, entra na solitude e faz a experiência profunda com Deus.

                  




                          




A Luz que Obscurece: a Vida Paradoxal do Místico

Prof. Dr. Messias Correia



...Parece-me que ficou claro qual seja a missão do místico. Implica uma espécie de inutilidade prática, ao menos do ponto de vista do que o mundo espera. A esse respeito, direi da seguinte maneira: se os místicos são os sujeitos da experiência do mistério, como bem enfatizou Lima Vaz (Lima Vaz, 2015, p. 18), são, desse modo, aqueles que adentraram numa relação íntima com o Absoluto, mas que ainda permanecem no mundo.

São humanos, como todos os humanos. Têm seus dramas, inquietações, pecados e enfermidades. De igual modo, sonhos, frustrações e paixões. Não são separados do mundo, nem seres angelicais, nem suas ações são perfeitas e incorrigíveis. O místico é um humano que tem necessidades elementares, que chora e sorri. Volto a dizer: é humano e só pode sê-lo, com toda a dramaticidade que ser homem ou mulher implica. Mas não se encerra aí. Por ser alguém que toca o mistério, é sinal de contradição. Nesse sentido, tem consciência expansiva e clarificada; é penetrado e obscurecido docilmente pela luz divina. Aqui subsiste um paradoxo que o torna banal, um ponto de interrogação, um nó difícil de ser desfeito, um escrito difícil de ser interpretado, não em si mesmo, mas porque o mistério dos místicos é o próprio Deus, que transcende toda a compreensão humana. Nesse caso, não são os místicos o mistério, mas setas apontadas para a eternidade, uma senha que acessa o Nada, e por nada se entende Aquele que está para além de toda explicação. Defrontamo-nos com a dificuldade de compreendê-los, uma vez que nem eles próprios interpretam com maestria certos fenômenos e experiências. Assim, dialogam com o mundo pela via dos intervalos, dos silêncios. Isto é, comunicam-se poeticamente, mas sempre em débito, numa espécie de falta invencível. Existem na negação. Habitam poeticamente no mundo, pois a poesia é o “lugar” em que se sentem mais próximos do que os identifica: o vácuo. Veem Deus pela fenda da rocha. Podemos considerar que, nessa experiência mística, é possível visualizar, como que pelo véu, o apelo mais profundo do ser humano, que é unir-se a Deus. Por isso, torna-se o hálito puro que faz a alma respirar e descansar. A mística eleva o homem, na entrada de si, para o inefável e o torna partícipe da luz divina. Os místicos são seres que estão a caminho; são andarilhos deste mundo, sem pátria definida. Enquanto caminham, seu próprio chão se abisma. Seus pequenos passos alargam-se em mistério. Eles não caminham; é o mistério que os atravessa. Caminham lentamente, pois já encontraram o que não encontraram e conhecem o que desconhecem. Os místicos são setas apontadas para o vazio, uma flecha presa ao arco e cravada no exato ponto invisível. Diante disso, o que devemos esperar dos místicos? O que nos podem oferecer? Desses homens e mulheres não se deveria esperar coisa alguma, uma vez que deles exala apenas o vazio. Seus olhares são abismos; seus semblantes, nostalgia. São, sim, pobres andarilhos. Falta-lhes até mesmo a palavra. Não há o que aplaudir ou prestar-lhes homenagem, pois seu ser beira a inexistência e não deseja outra coisa senão tornar-se divino, mesmo que, para isso, não queira divinizar-se. Sua busca de Deus é ininterrupta, e sua consciência se expande para o Deus sempre presente, que inunda todas as coisas. Sua alma respira, no silêncio, a eterna fragrância do divino; mas, outras vezes, seu olfato lhe é retirado, assim como sua visão, audição e todos os sentidos corporais e espirituais.

Portanto, podemos afirmar que os místicos são a harpa do Espírito. Do seu centro surge uma melodia que não vem deles mesmos, pois neles vibra o Eterno. Deles não se espera coisa alguma, pois não têm coisa alguma a oferecer: Deus não é coisa, nele se irradia o totalmente Outro. Apresentam-se ao mundo e no mundo de modo discreto; na verdade, preferem ocultar-se. Quanto às suas interioridades, o que há? Luz e sombra. Santidade e pecado. Bonança e tempestade. Na interioridade do místico, tudo é mistério. Um vendaval que se forma em quietude. Um turbilhão que arde e reinflama. Deus no humano, o humano em Deus; um desejo que grita e cala; uma palavra que diz e some; uma ânsia e uma busca ininterrupta. Tendo encontrado Deus, não o encontrou. Tendo Deus nele habitado, torna-o vazio. Beija a divina face sempre em despedida; acaricia sua face em espelho; contempla-O sem visão, enquanto fé. É o mais comum dos humanos, trivial, cotidiano, e orvalha o infinito. Não sabe dizer senão descodificando, e sua lógica é um susto, um soluço. Faz em seu íntimo uma experiência das delícias de Deus, mas quase sempre sem paladar. Deus, no entanto, com sua graça, aguça os recipientes de seus sentidos, elevando-os à profundidade do mistério. De outro modo, retira-lhe todo vigor e obscurece as faculdades a ponto do não sentir. O não sentir Deus é uma das formas mais profundas de estar com Ele, pois excede toda explicação. Se o ser humano é templo de Deus, dizem as Escrituras Sagradas, ao místico parece suficiente ser capela sem Deus e habitação do divino. Um altar caído onde o corpo de Deus se ergue. Encerra em si todas as contradições e harmonias.