Meditações espirituais
A Secreta Alegria do Silêncio.
Prof. Dr. Messias Correia
De que silêncio estamos tratando, senão daquele próprio do ato orante do ser que se volta ao divino, nele depositando toda a sua esperança e repouso. Esse silêncio é sempre oportuno, pois constitui um caminho suave de escuta e de conhecimento. Não está isento de dores; contudo, em seu núcleo habita uma alegria que se difunde não em grandes frenesis ou euforias, mas na serenidade dos gestos, na harmonia das palavras e na postura do corpo. Trata-se de uma alegria que, aos olhos de alguns, sobretudo daqueles que a reconhecem apenas na euforia ou em manifestações exaltadas, pode facilmente parecer tristeza. Por isso, não é incomum que o silêncio seja confundido com melancolia, já que, para muitos, o lugar da alegria se revela apenas em gestos ruidosos e ambientes repletos de barulho. Isso não significa que a alegria não se manifeste, em muitos momentos, dessa forma. O problema, porém, reside no fato de incorrermos no grave erro de fugirmos do silêncio, ao associá-lo indevidamente à tristeza. O que defendo aqui é que há, no núcleo do silêncio - quando este é orante - uma alegria mais densa e duradoura, que não nasce de realidades exteriores e superficiais, mas que diz respeito ao encontro do ser consigo mesmo e com o divino que nele habita. Trata-se de uma presença que eleva o ser ao conhecimento e promove uma harmonização interior, inserindo-o em um dinamismo para o qual foi criado.
Há alegria no silêncio; isso, porém, não significa que não existam, igualmente, incômodos que acometem o corpo e a mente, nem que aquele que silencia tenha alcançado um estado de imunidade frente às paixões humanas. Ao contrário, o silêncio frequentemente revela tais realidades, fazendo-as emergir da interioridade para a exterioridade e da exterioridade a interioridade. Contudo, o silêncio é um caminho para realidades maiores, um encontro definitivo com a singularidade divina. Certa vez ouvi, não me recordo exatamente onde, talvez de um monge budista, uma explicação alegórica: a de uma pedra lançada ao alto a um rio. Ao cair, ela toca a lâmina d’água, formando ondas; sua velocidade de descida diminui gradualmente até que, por fim, repousa no fundo do rio. Ali, as águas seguem seu curso naquele corpo agora imóvel, em silêncio. O impulso inicial e o impacto precedem o repouso. Assim também é o silêncio na vida interior: a pedra lançada já pertencia ao próprio rio; ao retornar, reencontra o seu lugar de repouso. O rio não lhe é estranho, pois ela é parte dele. Há uma alegria nessa pertença, mas é uma alegria em repouso, sem alardes e barulhos.
Padres do Deserto
Praktiké, Physiké e Theoretiké:
a Estrutura da Vida Espiritual em Evágrio Pôntico.
Prof. Dr. Messias Correia.
entanto, é conhecido de que tenha nascido por volta de 345 em Ibora, na Ásia Menor, na chamada província do Ponto. Foi contemporâneo e conviveu ainda jovem com Básílio que o introduziu na ordem de leitor e manteve vínculos muito próximos com Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa. Portanto, estava inserido no grupo dos Padres da Capadócia que certamente exerceram grande influência em sua trajetória espiritual. O que pretendemos aqui não é tecer um comentário biográfico, mas apresentar alguns aspectos importantes de sua doutrina. Alguns conceitos são recorrentes em sua obra e são fundamentais para se construir uma interpretação de sua mística, como é, por exemplo, o termo Praktiké, que diz respeito a um método espiritual, um caminho que conduz a purificação da parte passional da alma. Trata-se, na verdade, de um caminho de aquisição da virtude. Não se trata de uma técnica tal como concebida em nosso tempo, mas em um caminho de condução da vida em direção ao divino, uma dependência da divindade que resulta no processo de redenção. A Praktiké deve purificar as faculdades irracionais da alma, vencer as paixões para que se alcance a impassibilidade (apatheia)[1]. Essa conquista é uma espécie de coroamento da Praktiké. Nesse sentido, alcança- se a physiké, ou o conhecimento das criaturas que, de alguma forma torna o divino conhecido. A teologia mística, o que se tem é a contemplação theoretiké que é o conhecimento mais elevado do divino, a gnostiké. Assim, Evágrio estabelece sua relação com Deus numa perspectiva tripartite: praktiké, physiké e theoretike. Essa
[1] A palavra apátheia, muitas
vezes fora traduzida erroneamente como uma espécie de “apatia” ou até mesmo indiferença e insensibilidade. No entanto, diferente do sentido estoico, no meio eclesiástico é relacionado à libertação
de todas as paixões. Isso ocorre quando se é preenchido pelo Espírito Santo. É o espaço em que a alma arde de amor pelo divino e rompe com o egoísmo. Interpretação extraída da nota de rodapé da obra Escada do Paraíso (CLÍMACO, 2020, p. 8).
[2] EVÁGRIO, [s.l], s.d, 8, p. 55. A referida obra, em sua versão digital,
não oferece as informações da editora e o ano da publicação.
O Corpo e a Prece: a
travessia para o interior do ser.
Prof. Dr. Messias Correia.
A vida interior: caminho, conflito e desvelamento.
Prof. Dr. Messias Correia.
A mística como experiência da Transfiguração.
Prof. Dr. Messias Correia.
Multiplicidade, fragmentação e singularidade: dinâmicas da vida mística.
Prof. Dr. Messias Correia
Entre solidão e solitude:
a emergência da singularidade espiritual.
Prof. Dr. Messias Correia
Solidão interior em direção à Singularidade. "Sobe a mim na montanha". Essa é a ordem de Deus a Moisés. Ele imediatamente se levanta com Josué e, juntos, iniciam a subida. A Escritura narra: "Moisés, entrando pelo meio da nuvem, subiu à montanha" (Ex 24,18). Josué, porém, não acompanha Moisés até o cume; permanece em um ponto mais baixo, aguardando o seu retorno. Moisés entra sozinho na nuvem. Essa narrativa bíblica revela um aspecto profundo da relação com Deus que também se manifesta na vida mística: a experiência da solidão diante do Mistério. A partir dessa perspectiva, podemos considerar algumas formas de solidão
próprias do caminho espiritual: a solidão do mistério inexprimível, a solidão pragmática, a solidão relacional e a solidão árida.
A solidão do mistério inexprimível ocorre quando o homem espiritual adentra o mistério de Deus e recebe moções divinas, isto é, um conhecimento que se manifesta na alma por via iluminativa. Trata-se de uma solidão marcada, sobretudo, pela dificuldade, ou mesmo pela impossibilidade de expressar verbalmente aquilo que se experimenta na profundidade da relação com o divino. O esforço de traduzir a experiência em discurso, muitas vezes sem êxito, pode gerar uma forma particular de solidão interior.
A solidão pragmática refere-se à inadequação entre o homem espiritual e as prioridades do mundo. Não se trata de irresponsabilidade ou descuido com as questões humanas, mas da percepção de que muitos dos horizontes de sentido que ocupam a vida das pessoas são, em grande medida, ilusórios e se opõem ao verdadeiro sentido da existência humana. Essa solidão manifesta-se quando o homem espiritual percebe que grande parte das interações humanas gira em torno de superficialidades. Ele pode até participar dessas dinâmicas e desempenhar bem os papéis sociais que lhe são atribuídos, mas interiormente permanece voltado para outros horizontes, como que recolhido em um silencioso retiro interior. Essa experiência pode surgir em diversas
situações, ambientes e conversas da vida cotidiana.
A solidão relacional não é um fechamento em si mesmo, nem um ato de egoísmo ou vaidade. Trata-se, antes, de uma dinâmica espiritual em que Deus afasta certas pessoas ou afasta o homem espiritual de determinados círculos, ainda que isso, por vezes, provoque sentimento de ausência ou saudade. Algo semelhante ocorre na narrativa de Moisés: ele deixa a multidão na planície, sobe o monte, deixa Josué no caminho e chega ao topo sozinho. Essa solidão manifesta-se sobretudo na interioridade, quando a alma ora, medita e contempla, no silêncio do ser, a presença divina. Essas formas de solidão não devem ser entendidas como realidades
absolutamente separadas ou impermeáveis entre si, embora, em certos casos, possam ocorrer de modo isolado. Com frequência, porém, manifestam-se simultaneamente, conforme a ação de Deus e as necessidades do homem espiritual. Quando várias dessas experiências convergem e se intensificam, pode surgir aquilo que se pode chamar de solidão árida ou desértica. A solidão árida caracteriza-se pela densidade espiritual da experiência. Nela, o ser humano é conduzido a um estado de profundo abandono e despojamento interior. As diversas dimensões da vida parecem expostas ao calor do deserto. Mesmo vivendo no mundo da multiplicidade e convivendo com os seus semelhantes, a alma experimenta uma solidão profunda que a conduz a um progressivo abandono em Deus, semelhante ao de uma criança que se entrega confiadamente ao colo do Pai. Por essa razão, tal solidão não representa perda ou empobrecimento espiritual, mas antes um caminho de progresso: uma passagem da multiplicidade à singularidade. Ela favorece o desapego das confusões e ilusões que se multiplicam na experiência humana, como se golpes fossem desferidos contra a dispersão interior, com a finalidade de podar excessos e lapidar a alma. A solidão é, assim, uma passagem, uma travessia de despojamento, de desnudez para
que o homem espiritual alcance o bem da solitude. Isto é, o prazer, a segurança e a liberdade de permanecer a sós com Deus. Sem prestar conta, sem querer impressionar ao público, sem fingimento, pois não sendo visto pelos seus semelhantes em seu mistério interior, é desnudo diante de Deus. A solitude antecipa, com sua a quietude que lhe é própria, à singularidade. É uma antessala da união mais perfeita com Deus.
Portanto, essa experiência não ocorre segundo um tempo previamente determinado pela vontade humana, nem se mantém de forma contínua e uniforme. Há variações conforme o progresso da alma e as necessidades do caminho espiritual. Contudo, o mais importante não é a duração dessas experiências, mas os efeitos que produzem e a que ela conduz: transformações profundas na interioridade, pelas quais a alma se aproxima cada vez mais da sua singularidade diante de Deus. Como demostrado no início, Moisés sobre ao monte na solidão e, em seguida, ao entrar na nuvem, entra na solitude e faz a experiência profunda com Deus.
A Luz que Obscurece: a Vida Paradoxal do Místico
Prof. Dr. Messias Correia